São nove da noite de um domingo. Uma cliente com baixa visão abre o site da sua loja no celular, aumenta a fonte e procura o botão de comprar. O texto cinza-claro sobre fundo branco some, a foto do produto não tem descrição e o formulário de contato não diz qual campo é qual. Ela fecha a aba. Você nunca vai saber que ela existiu.
Acessibilidade digital voltou ao noticiário brasileiro. Em julho de 2026, a Justiça Federal deu à União 180 dias para apresentar um plano de acessibilidade nos sites federais, com multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento, depois de uma ação do Ministério Público Federal. Nas semanas seguintes, sites de grande porte, como o do MetrôRio, passaram a anunciar recursos de acessibilidade. E o relatório WebAIM Million de 2026, que analisa o código de um milhão de páginas iniciais, encontrou falhas de acessibilidade em 95,9% delas, número que piorou frente aos 94,8% de 2025.
O que a lei já cobra do site da sua empresa, e não só do governo?
A ação da Justiça mira os sites públicos, mas a obrigação não nasceu agora nem vale só para o governo. O artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146, de 2015) já exige que sites de empresas sejam acessíveis a pessoas com deficiência. O que faltava, e o Ministério Público cobra agora, era uma regra técnica clara, lacuna que a ABNT começou a preencher com a norma NBR 17225, de 2025.
Para o dono de PME, a tradução é direta: o site da sua empresa já está sob essa lei, mesmo que ninguém tenha batido à sua porta ainda. A diferença entre você e o site federal que virou processo é só o tamanho do holofote.
Isso vale para o site de uma empresa pequena ou é preciosismo de gente grande?
Vale, e o motivo não é o medo da multa. O Censo 2022 do IBGE contou 14,4 milhões de brasileiros, 7,3% da população, com algum tipo de deficiência. Some quem enxerga mal, quem usa o celular sob sol forte, quem já passou dos sessenta. Esse público está longe de ser nicho: é uma fatia grande de quem já tenta comprar de você.
E os erros que barram essas pessoas são os mesmos que derrubam sua conversão e seu ranqueamento. O WebAIM Million 2026 aponta o baixo contraste de texto como o problema mais comum, presente em 83,9% das páginas. Depois vêm imagens sem descrição (53,1%) e formulários sem rótulo nos campos (51%). Foto de produto sem descrição é venda perdida para quem usa leitor de tela e posição perdida no Google, que lê essa mesma descrição para entender a imagem. Campo de formulário sem rótulo é lead que não chega. Acessibilidade e conversão puxam a mesma corda.
Como colocar a acessibilidade na rotina antes de cada publicação?
A saída é simples de descrever e chata de manter: transformar acessibilidade numa checagem curta, que entra antes de qualquer página ir ao ar, do mesmo jeito que você confere o preço antes de publicar uma promoção. O mutirão único, que conserta tudo de uma vez e depois cai no esquecimento, não segura o problema por muito tempo.
Comece medindo, não adivinhando. Rode a página no Lighthouse, que já vem dentro do Chrome, ou num verificador de contraste, antes de trocar o layout ou lançar uma campanha. Em segundos ele aponta o texto de baixo contraste e as imagens sem descrição. Corrija o contraste primeiro, porque é o erro mais frequente e o mais rápido de resolver: escurecer um cinza ou engrossar uma fonte melhora a leitura para todo mundo, não apenas para quem tem baixa visão.
O teste de teclado que muda o diagnóstico
Depois, largue o mouse. Percorra o site inteiro só com a tecla Tab e o Enter, como faz quem depende do teclado ou de leitor de tela. Se você não consegue chegar ao botão de comprar nem preencher o formulário assim, seu cliente também não consegue. Escreva uma descrição curta para cada imagem que carrega informação e um rótulo visível para cada campo de formulário. E teste sempre no celular de verdade, não só na tela grande do computador, porque é ali que a maioria dos seus clientes chega.
Se o site da sua empresa foi feito há alguns anos, é provável que carregue vários desses erros sem que ninguém tenha reparado. Melhor checar antes que um cliente, ou o Ministério Público, repare por você. Quando o site é construído já com contraste correto, descrições e formulários bem marcados, essa rotina quase some, porque o problema não chega a nascer, e é com isso em mente que a Lynxweb trabalha ao criar o site de uma empresa. Quando o site já existe e acumulou esses erros, dá para corrigir sem refazer tudo, revisando página por página na manutenção do site.
Para saber se funcionou, não espere seis meses. Uma semana depois das correções, rode o Lighthouse de novo na mesma página e compare a nota de acessibilidade, refaça o teste do teclado e acompanhe quantos visitantes do celular chegam ao fim do formulário. Se esse número sobe, o site deixou de barrar, calados, clientes que antes desistiam sem deixar rastro.